Cientistas descobrem que as arritmias cardíacas são provocadas por pontos elétricos específicos

Pesquisadores da Universidade de San Diego, na Califórnia, apresentaram um novo método capaz de dobrar o sucesso no tratamento de arritmias cardíacas. Isso porque, pela primeira vez, foi constatado que pequenos “peões” elétricos no coração, mais conhecidos como rotores, são os causadores da fibrilação atrial (FA). O coração de um adulto normal bate de 60 a 80 vezes por minuto, em repouso. Entretanto, em pessoas com o distúrbio, impulsos elétricos caóticos gerados nas câmaras superiores do coração acabam por resultar em batimentos rápidos e irregulares.

O cardiologista e autor principal do estudo, Sanjiv Narayan, explica que, antes de seu trabalho, muitos cientistas acreditavam que a fibrilação atrial era causada por múltiplas ondas aleatórias. “No entanto, nós mostramos que, na verdade, ela é provocada por pequenos ‘peões’, que chamamos de rotores, ou ‘fontes focais’, similares às ondulações causadas por pedras jogadas na água, que interagem para provocar a ilusão de um caos”, diz Narayan. Segundo ele, a origem da fibrilação atrial não se dá de forma desorganizada. Pelo contrário, na maioria de seus pacientes ela estava relacionada a um, dois ou mesmo três pontos focais bem localizados. Entretanto, em cada pessoa, esses pontos podem ser encontrados em diferentes regiões.

Além de inaugurarem uma nova forma de pensar a origem do distúrbio, os pesquisadores conseguiram desenvolver uma técnica capaz de mapear precisamente onde se encontram os pontos focais responsáveis por gerar caóticos sinais elétricos nos átrios. Por meio da aquisição da imagem do coração de um paciente com fibrilação, os médicos compararam o movimento espiralado do rotor elétrico com o olho de um furacão. Segundo eles, ao encontrar esse ponto exato é possível eliminá-lo e, assim, acabar com a arritmia.

Depois do mapeamento dos pontos críticos, a técnica utilizada para acabar com os batimentos irregulares do coração é a já conhecida ablação por cateter, também chamada de cauterização. Ou seja, a base do processo é a mesma; o que muda é que, agora, é possível atacar o alvo com muito mais precisão, aumentando de 40% para 86% o sucesso do tratamento. Narayan ressalta que o resultado foi confirmado por meio da aplicação do método batizado de Impulso Focal e Modulação de Rotor (Firm), em mais de 200 pacientes espalhados por oito estados norte-americanos.

Depois de mais de dois anos de acompanhamento, os pesquisadores viram que a maioria das pessoas não voltavam a apresentar arritmia no coração. Esse foi um grande avanço, pois, pela cauterização tradicional, depois da primeira intervenção, o problema reincide em cerca de 50% dos pacientes. Com isso, é comum que o procedimento seja repetido, o que, de certa forma, agride mais o coração. Além disso, após a repetição do procedimento o sucesso aumentava em apenas 60% a 70% dos casos.

Empirismo
De acordo com Adalberto Lorga Filho, presidente do Departamento de Arritmias Cardíacas da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a presença dos rotores e a atividade focal já era conhecida em várias formas de arritmia, entretanto, para a fibrilação atrial não existia uma forma de identificar precisamente o olho do furacão. “Antes, fazia-se uma série de aplicações de cateter no coração de forma meio empírica, até encontrar os pontos cruciais do mecanismo. Nessa tentativa, entretanto, corríamos o risco de criar outras arritmias que não existiam antes da intervenção”, conta Lorga.

“Até o nosso trabalho, os médicos tratavam regiões muito amplas do coração com cauterização, e às vezes o procedimento chegava a queimar um terço do músculo. Nós mostramos que ablações muito rápidas nos pequenos pontos específicos podem tratar o ritmo anormal, cauterizando apenas uma porcentagem pequena do coração”, enfatiza Narayan. Segundo o cardiologista, pelo novo método de Firm é possível que a intervenção dure apenas de cinco a 10 minutos. Atualmente, o procedimento padrão leva mais de uma hora.

Narayan ressalta que, mesmo depois do êxito da cauterização, é importante ter certeza que os pacientes não permanecem com fibrilação atrial sem saber, o que é chamado de FA assintomática ou silenciosa. Para tanto, em seu estudo, o médico implantou cirurgicamente monitores especiais de eletrocardiograma na maioria dos pacientes, de forma a assegurar que a FA silenciosa não estava presente. “Esse é um nível muito difícil de alcançar. Estamos, portanto, confiantes de que nossa abordagem por Firm tem os melhores resultados na eliminação de fibrilação atrial relatados”, defende ele.

Uma importante questão levantada pelo estudo de Narayan foi a correlação usual entre as veias pulmonares e a origem da FA. “Nós observamos em nossos pacientes que as fontes dos distúrbios encontravam-se bem distantes do princípio das veias pulmonares. Entretanto, as atuais cauterizações são focadas exatamente nessas veias. Além disso, os pontos focais estão presentes tanto no átrio esquerdo quanto no direito”, relata. Segundo Narayan, atualmente, os médicos tratam, predominantemente apenas o lado esquerdo, o que seria um erro.

Rapidez
Sob novo protocolo, a equipe de pesquisadores da Universidade de San Diego está testando mais ablações por Firm, mas agora sem cauterizar áreas perto das veias pulmonares. Como as intervenções nesses locais necessitam de um cuidado redobrado para não comprometer o sistema de oxigenação por entupimento das veias, elas tomam muito mais tempo do que as cauterizações realizadas em outras áreas. Dessa forma, o que os pesquisadores propõem é um método mais rápido e com um potencial de ser seguro e mais eficiente do que as formas tradicionais de ablação.

Para Lorga Filho, apesar de o novo trabalho trazer um boa expectativa de melhora do sucesso da ablação de FA, é preciso ter cautela e esperar as próximas publicações que confirmem o avanço do estudo. “Também temos que pensar na viabilidade do método, na possibilidade de adquirir esses equipamentos e de reproduzir os serviços”, alerta.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, em pessoas com mais de 80 anos a incidência de fibrilação atrial crônica na população chega a atingir níveis entre 10% a 15%. Além disso, cerca de um em cada 10 mil jovens tem FA. Nesses indivíduos, a doença é geralmente intermitente, mas pode se tornar crônica em 25% dos casos. Muitos pacientes não apresentam sintomas, porém, palpitações rápidas e irregulares são as mais comumente referidas, principalmente nos casos agudos. Devido à perda da contração atrial, existe uma redução da função cardíaca, que pode acarretar alguns sintomas, como respiração curta, falta de ar, tonturas ou vertigens e dor no peito.

O cardiologista Anderson Rodrigues, do Laboratório Sabin, diz que o tratamento da fibrilação atrial é feito de acordo com a gravidade do caso. Em arritmias mais brandas, a melhor opção é o acompanhamento clínico, com medicamento. Já em casos mais complexos, tanto os exames de mapeamento dos pontos focais quanto o tratamento requerem métodos mais aprofundados. “A cauterização é um método invasivo, você tem de furar a virilha do paciente para implantar o cateter. Portanto, se você pode tratar com remédios, é melhor do que submetê-lo à ablação”, defende. Segundo ele, o novo método pode ajudar no tratamento da doença, já que a forma mais precisa para encontrar os focos de arritmia pode agilizar o processo e diminuir o risco da cauterização em pacientes com arritmia grave.

Fonte: http://www.em.com.br/app/noticia/tecnologia/2012/08/07/interna_tecnologia,310446/cientistas-descobrem-que-as-arritmias-cardiacas-sao-provocadas-por-pontos-eletricos-especificos.shtml

 

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